As três grandes pirâmides de Quéops finalmente revelam dados importantes que permitem determinar como os egípcios conseguiram mover esses pesados blocos de pedra para construir a estrutura. Ao longo dos séculos, a Grande Pirâmide de Gizé levantou uma questão que nunca foi totalmente esclarecida: como os seus construtores conseguiram mover e erguer milhões de blocos de pedra sem a tecnologia moderna.
A teoria clássica sobre a construção das pirâmides do Egito fala sobre o uso de rampas externas em grande escala, que prevaleceu durante décadas, mas deixou muitas lacunas. As dimensões que essas rampas deveriam ter, a velocidade necessária do trabalho e a completa ausência de vestígios correspondentes nas proximidades da pirâmide tornaram cada vez mais difícil defendê-la.
Como foram construídas as pirâmides egípcias, de acordo com a nova teoria
A pesquisa de Simon Andreas Scheuring, publicada na npj Heritage Science, trouxe novamente este tema à discussão. De acordo com os seus cálculos, para concluir a construção em cerca de 20 anos, os trabalhadores teriam de mover um bloco por minuto. Os cálculos não batiam certo. Também não batia certo a ideia de rampas externas com mais de um quilómetro de comprimento, construções para as quais não há evidências arqueológicas.

Diante dessas inconsistências, Sheuring propôs outra possibilidade: que o sistema de elevação estivesse dentro da pirâmide, e não fora dela. A hipótese sugeria algo mais simples do ponto de vista logístico: corredores inclinados internos, blocos e contrapesos, usando a força da gravidade para mover os blocos para cima. Nesse esquema, o Passagem Ascendente e a Grande Galeria não eram apenas passagens cerimoniais, mas partes ativas do mecanismo. A sua inclinação, quase idêntica à necessária para um sistema de contrapesos, e os vestígios de desgaste nas suas paredes correspondiam a tal utilização.
Estrutura que dá uma pista importante sobre como as pirâmides foram construídas
Um dos momentos mais memoráveis da descoberta foi a reinterpretação do Ante-câmara, o espaço diante da Câmara do Rei. A interpretação tradicional considerava-o uma estrutura destinada a bloquear a passagem de ladrões. Sherring, por outro lado, apontou que a sua construção não correspondia a esse objetivo e que era mais adequada para ser usada como centro operacional para blocos e cordas. As ranhuras no granito, o desgaste irregular e a localização do espaço reforçaram essa ideia. De acordo com o modelo, era ali que se concentravam e distribuíam as forças criadas pelos contrapesos que desciam pelos corredores internos.
Por que a assimetria das câmaras faz parte do mecanismo e não é apenas um símbolo
O trabalho também propôs uma explicação técnica para algumas características da pirâmide que historicamente chamaram a atenção. A assimetria das suas câmaras internas — a câmara do rei está deslocada do eixo e a câmara da rainha está localizada fora da linha central — poderia atender às necessidades do mecanismo, e não a critérios simbólicos.

O mesmo aconteceu com a pequena concavidade das suas faces externas, um detalhe visível apenas do ar e registrado por medições modernas. De acordo com a hipótese, essa curvatura ajudava a estabilizar e instalar blocos mais leves em altura. A teoria também recebeu apoio indireto em pesquisas com muões, que descobriram cavidades internas cuja função ainda não está clara. Uma delas, localizada acima da Grande Galeria, coincidia com o tipo de espaço que exigiria um sistema de rampas internas.
A isso se somaram placas de granito e vestígios de atrito encontrados em escavações anteriores, que no estudo foram associados a possíveis contrapesos usados durante a construção. O modelo não excluiu a existência de rampas externas menores, mas mudou o foco: o método principal aparentemente foi usado dentro da pirâmide. Futuras investigações não invasivas, especialmente nas partes superiores ainda inacessíveis, serão cruciais para verificar essa interpretação. Se os dados forem confirmados, a arqueologia poderá ser reescrita.

