Durante décadas, muitos investigadores assumiram que os cânions submarinos — esses enormes vales profundos que se afundam desde as bordas dos continentes até às zonas abissais do oceano — tinham uma origem semelhante à dos cânions terrestres: a ação erosiva dos rios. No entanto, um novo estudo publicado este ano na prestigiada revista Science Advances desmontou essa ideia arraigada, revelando que os rios não são os principais responsáveis pela formação dessas impressionantes estruturas geológicas.
O estudo demonstra que fatores como a inclinação pronunciada do talude continental, os processos tectónicos (como o movimento das placas e a atividade sísmica), o arrefecimento térmico da crosta oceânica e a instabilidade causada por deslizamentos submarinos são determinantes para o surgimento e a formação de um canhão no fundo do mar. Isso desafia a hipótese tradicional de que os canyons submarinos teriam se originado principalmente pela erosão de rios antigos que, durante períodos de níveis mais baixos do mar, teriam continuado a escavar abaixo da linha d’água.
Como se formaram então
De acordo com os cientistas, esses canyons são gerados quando o fundo do mar possui declives muito acentuados. Nesses contextos, a gravidade desencadeia deslizamentos, colapsos e movimentos de sedimentos que, com o passar do tempo, vão escavando vales cada vez mais profundos. Uma vez iniciado o processo, correntes submarinas rápidas e densas, conhecidas como correntes de turbidez, transportam sedimentos – areia, lodo e matéria orgânica – para as profundezas do oceano. Estas correntes não são semelhantes aos fluxos de água dos rios, mas são subaquáticas e são desencadeadas por diferenças de densidade e gravidade, movendo-se ladeira abaixo com grande força.

Não é que os rios sejam completamente irrelevantes, mas o seu papel não é o principal motor da formação dos canyons submarinos. O novo estudo indica que, durante certos períodos geológicos, como episódios de níveis marítimos excepcionalmente baixos, algumas fozes de rios ficaram mais próximas da borda continental e contribuíram com sedimentos que aceleraram o crescimento local de alguns canyons. Mesmo assim, esses aportes foram secundários em relação aos processos geodinâmicos marinhos.
Implicações científicas e climáticas
Esta descoberta não apenas redefine a compreensão geológica dos fundos oceânicos, mas tem implicações importantes para o estudo do clima global. Os canyons submarinos atuam como vias naturais para transportar carbono orgânico e sedimentos para as profundezas, onde podem ficar presos por milhões de anos. Estima-se que entre 62 e 90 milhões de toneladas de carbono terrestre sejam depositadas anualmente nessas estruturas, contribuindo assim para os sumidouros de carbono do planeta.
As descobertas também têm implicações práticas. As correntes de turbidez dentro dos canyons podem ser perigosas para infraestruturas submarinas, como cabos de telecomunicações e tubulações. Compreender melhor a distribuição e a dinâmica desses canyons permitirá projetar mapas de risco mais precisos e estratégias de planejamento mais seguras.

